terça-feira, 4 de novembro de 2014

TRÊS ENSAIOS DA TEORIA DA SEXUALIDADE DE 1905

O artigo trás  uma reflexão sobre a sexualidade infantil no contexto escolar. tema polemico  pela multiplicidade de visões, crenças, tabus, interditos e valores inseridos. O senso comum  considera a sexualidade infantil algo inexistente, inclusive que não deve-se ser mencionado ou discutido. Nesta pesquisa compreenderemos  a concepção de "infantil" para Sigmund Freud no final do século XIX e início do século XX, através do exame da obra Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905), a qual o autor apresenta a teoria sobre a sexualidade infantil.

                  Entendemos que os Três ensaios sobre a teoria da sexualidade  (Freud, 1996), particularmente em sua primeira versão (1905), constituem o que poderíamos designar como uma “obra aberta”, em que diferentes teses sobre a pulsão sexual - muitas vezes, contraditórias entre si - são apresentadas, lado a lado, sem uma preocupação com qualquer tipo de síntese conclusiva.

O estudo freudiano sobre o impacto da sexualidade infantil para a vida adulta desafiou a noção dominante da época. A criança caracterizava-se como criatura pura e inocente. Com estes pensamentos Freud passa a ser reconhecido como revolucionário, chocante e mesmo ofensivo pela sociedade. Mesmo hoje a sociedade definindo-se como contemporânea moderna, há criticas e divisões de opiniões. Os reflexos deste modo de perceber a criança é fruto da herança cultural vitoriana. Por outro lado, cada vez com mais propriedade e embasamento teórico  é possível identificar que estes  pequenos têm desejos, experiências e fantasias sexuais, embasados na teoria Freudiana.

Nos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, escrito em 1905, Freud (1996) surpreendeu a comunidade científica com a teoria de que as experiências e condutas sexuais infantis contribuem para a vida e o comportamento da pessoa adulta. Em seu trabalho revelava a divisão do período pré-puberal do desenvolvimento da personalidade em estágios dominados por tendências sexuais, essas provenientes de impulsos instintivos e não aprendidos, porém com o objetivo do prazer. 

A sexualidade, quando relacionada à infância, ainda hoje, é pouco falada e explicada e, por isso, permanece como uma terra incógnita para os adultos que a experenciam como uma temática assustadora e, muitas vezes, proibida. No entanto, é uma dimensão humana à serviço da vida porque traz ganhos vinculados às bases fundamentais da felicidade como o exercício do prazer e do amor. (CONSTANTINE, MARTINSON, 1984).

É preciso observar que, sobretudo na versão original de 1905, as idéias apresentadas sobre as perversões - na medida em que são associadas à excitação e à obtenção do prazer de modo generalizado, ao mesmo tempo que são concebidas independentemente de um objeto sexual pré-determinado - refiram-se não apenas à síntese perversa mas a toda a sexualidade humana. 

Nesse sentido, e isso Freud salienta desde o início, as perversões, ou melhor, as tendências perversas fariam parte constitutiva da sexualidade infantil. É de acordo com esta perspectiva que o autor, embora defenda a participação dos fatores disposicionais, finda por relativizá-los, colocando-os na dependência da experiência vivida.

Publicada em 1905, a obra em questão foi modificada pelo autor nas suas várias reedições, o que trouxe uma dificuldade do seu exame tendo em vista o objetivo do seu estudo. Se o objetivo foi analisar o infantil para Freud que se configura nos Três ensaios no contexto da emergência dos saberes sobre a criança, ou seja, no final do século XIX, o foco incidiu necessariamente sobre as idéias e os termos que foram colocados pelo autor em 1905. Deste modo, uma das preocupações principais do estudo desta obra foi tentar discernir as idéias e os conceitos que de fato fizeram parte da primeira versão da obra. Para tanto, realizamos o estudo cotejando diferentes edições que indicam as introduções feitas pelo autor, posteriores a 1905. (IMAGO, 2002).

Freud fala sobre as neuroses e diz que seus sintomas surgem não só pelas pulsões sexuais normais, como pelas perversas. Diz que essas pulsões perversas são decorrentes pelo fato dos pacientes manterem o estado infantil de sua sexualidade. Neste momento Freud passa ao estudo da sexualidade infantil, quebrando assim vários tabus.

 No estudo da sexualidade infantil, Freud diz que a criança tem um desenvolvimento sexual progressivo e é o recalque a essa sexualidade que gera o que o autor chama de amnésia, que ele explica ao fato de não lembrarmos fatos da nossa infância.

A sucção voluptuosa nos permitiu distinguir as três características essenciais de uma manifestação sexual infantil. Ela ainda não conhece objeto sexual algum, é auto-erótica e seu alvo sexual está sob a dominação de uma zona erógena. (FREUD, 1987, p.106-7).

Não satisfeito com estas duas hipóteses, Freud passa a explicar a presença do par de elementos opostos sadomasoquistas, a partir de uma espécie de disposição à bissexualidade que reuniria os caracteres masculinos e femininos da pulsão no mesmo indivíduo.

Mas, se no início dos Três ensaios, no momento em que Freud desmonta as noções “populares” de alvo e objeto específicos, opondo-se a toda e qualquer concepção pré-determinada da sexualidade, como pode admitir uma disposição originária de natureza bissexual?

Consideramos que essas oscilações, presentes em 1905, poderiam ser melhor compreendidas, caso não nos esqueçamos de que esta obra foi escrita logo após o abandono da teoria da sedução, em função do qual começaram a surgir vários impasses teóricos, sobretudo no que diz respeito à gênese das pulsões.

Freud afirma que a pulsão na criança é desprovida de objeto, ou seja, é auto erótica, voltada para o próprio corpo. Na infância as pulsões são desvinculadas e independentes entre si em sua busca pelo prazer, por isso Freud diz que a criança é um perverso polimorfo, ou seja não há moral nem vergonha por essa busca.

Para Freud a sexualidade seria passível de observação aos três ou quatro anos de idade. Posteriormente haveria um declínio da sexualidade infantil até a puberdade. Nesta fase da vida, denominada por Freud como período de latência, as pulsões sexuais teriam seus fluxos restringidos em forma de diques. Tais diques seriam os sentimentos de vergonha, a repugnância e as exigências dos ideais éticos e estéticos. 

A educação, para Freud, contribui muito na construção destes diques, embora o autor afirme que o desenvolvimento destes sentimentos faça parte daquilo que “é organicamente condicionado e fixado pela hereditariedade”. A atenção dispensada  pelos educadores à sexualidade infantil se daria como fortalecimento das forças defensivas diante da possibilidade da manifestação sexual infantil.

Uma afirmação como essa nos faz pensar que, a despeito da ênfase dada por Freud à ausência de objeto sexual como uma das características da sexualidade infantil, quando da referência ao ato de sucção do bebê, é possível depreender a ideia de que o auto-erotismo não seja originário, já que a condição de seu surgimento é a separação das funções autoconservativas da necessidade de reproduzir o prazer obtido originariamente na relação com o seio da mãe. Este, como veremos, deverá ser abandonado a partir da representação da mãe como objeto total, tornando-se a sexualidade infantil, em seguida, auto-erótica.

A sexualidade adulta resultaria de uma espécie de desenvolvimento da pulsão: dispersa em várias zonas erógenas, isolada em suas pulsões parciais e predominantemente auto-erótica (sem objeto) na infância, a sexualidade ganha um outro tipo de organização na puberdade. Essa nova organização se caracterizaria pela hierarquização e subordinação das diversas zonas erógenas à genital, visando a obtenção do máximo de prazer, mas sobretudo colocando-se a serviço da função de reprodução, o que se torna possível a partir da combinação das diversas pulsões parciais em uma só.

É como se houvesse, em particular nessa primeira edição de 1905, uma ruptura entre a orientação dada ao primeiro e ao segundo ensaio, de um lado, e ao terceiro, de outro, na medida em que no último, diferentemente dos primeiros, a sexualidade aparece associada a um certo finalismo organicista, ao mesmo tempo em que se pode identificar um retorno às concepções clássicas de normatividade.

A partir da análise exclusiva da primeira edição (1905), observamos uma verdadeira ruptura entre as orientações do primeiro e segundo ensaios em relação à do terceiro. Enquanto nos primeiros a sexualidade é apresentada essencialmente em seus aspectos perversos e polimórficos, no terceiro tais aspectos tendem a desaparecer, dando lugar a uma espécie de teleologia extrínseca a ela mesma, em que o prazer se vê substituído pelo fim reprodutivo.

No entanto, conforme avançamos na leitura das demais edições, notamos que a ruptura entre os dois primeiros ensaios e o terceiro praticamente desaparece, na medida em que, em nome de uma espécie de finalismo evolutivo, esboça-se cada vez com maior intensidade uma tendência a amenizar o “caráter aberrante” da sexualidade. Tendência que pode ser identificada, por exemplo, no momento em que começa a surgir a ideia de uma organização bem definida da sexualidade infantil (oral, anal e genital-fálica), cujo “estadismo” (a delimitação de estágios sucessivos) em nada se assemelha aos aspectos polimórficos e dispersos, tais como foram apresentados originalmente em 1905.

REFERÊNCIAS

CONSTANTINE, Larry L. MARTINSON, Floyd M. Sexualidade infantil: novos conceitos, novas perspectivas. São Paulo, Roca, 1984.

FREUD, Sigmund. Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade. In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol. VII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, Sigmund. In: IMAGO. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Trad. de Paulo Dias Correa. Rio de Janeiro, Imago, 2002. 







sábado, 23 de novembro de 2013

ANÁLISE SOBRE O FILME ‘ABUSO SEXUAL’


Alis Tatiana Minervin 

Sabemos que o abuso sexual, principalmente relativo a crianças tem tido constante espaço em noticiários e se tornando assim um grave problema social neste país e no mundo como um todo.

Nos Estados Unidos, o National Center on Child Abuse Prevention Research estimou em 1992 que 20% das mulheres e 7% dos homens americanos teriam sido vítimas, pelo menos uma vez, de abuso sexual na infância (MARQUES, 1994).

Vários órgãos públicos nacionais ou internacionais alertam, no entanto, que estes índices são frequentemente subestimados e crescentes. Existe bastante evidência histórica de que o abuso sexual de crianças tem sido em vários aspectos, uma característica de todas as gerações e de cada cultura. Entretanto, foi somente a partir de meados deste século, particularmente na última década, que a atenção do público em geral e dos acadêmicos, em particular, se concentrou profundamente neste assunto.
No filme apresentado que é baseado em fatos reais, dirigido por Donald Wrye mostra o drama real de três irmãs que foram obrigadas a processar o próprio pai por abuso sexual, que aconteceu quando elas ainda eram crianças. Já adultas é que o caso veio à tona, chocando a opinião pública americana e do mundo inteiro.

O abuso sexual aparece como uma forma específica de violência contra a criança, que diz respeito ao envolvimento desta em atividades sexuais que violam tabus sociais e de papéis familiares, e às quais não são capazes de dar um consentimento maduro (FURNISS, 1993).

O que foi mostrado no filme parece hoje ser um assunto mais comum do que se possa imaginar, já que ele está relacionado aos indicadores físicos, comportamentais e psicológicos apresentados pelas crianças abusadas. O termo “abuso sexual” como a própria palavra demonstra, apresenta indicadores que são apenas sinais de alerta para a possibilidade de abuso sexual infantil.
Desta forma, ao pensar no que as meninas, hoje mulheres, que são mostradas no filme, fazem parte de atuais dados, a probabilidade de abuso sexual deve ser avaliada diante de uma série de técnicas que podem incluir entrevistas clínicas com a criança e membros da família, observações sobre a brincadeira da criança, o uso de desenhos e outras técnicas projetivas e observações das interações da família.

A violência sexual contra a criança ocorre em todos os grupos sociais e em toda a estrutura de classes. Entre os ricos a violência contra a criança é ocultada para proteger a família, o agressor ou a criança de efeitos estigmatizantes. Entre os pobres o abuso permanece pouco visível porque famílias de classe baixa normalmente não esperam ajuda da polícia ou das instituições sociais e não notificam a violência (AZEVEDO E GUERRA, 1993).

Neste filme, que também tem uma versão em documentário que pode ser encontrado no Youtube, é possível observar que ele é contado através de flashbacks, mostrando o drama das três irmãs foram abusadas sexualmente pelo próprio pai por abuso sexual, cometido quando ainda eram crianças.
Geralmente, o abuso sexual cometido em crianças fica cercado por silêncio, tendo em vista que este é um ato que envolve medo, vergonha, culpa, e que lida com alguns tabus culturais, já que envolve sexo com crianças, e aspectos das relações de interdependência. O silêncio pode ser compreendido como uma tentativa de preservar o núcleo familiar, evitando dar-se conta da contradição existente entre o papel de proteção esperado da família e a violência que nela se dá.
Ao compararmos com a maioria das crianças, as vítimas de abuso sexual mediante incesto, podem apresentar um comportamento exageradamente submisso, que sempre vem acompanhado de uma alta dose de insegurança. Estas crianças têm cada aspecto de suas vidas frequentemente manipulado. Elas não têm controle sobre o que acontece com seus corpos e possivelmente pouca escolha nos acontecimentos diários, como por exemplo escolher seus amigos. O resultado desta situação é uma incapacidade crescente de tomar o controle de vários aspectos de suas vidas.
No caso das três meninas do filme, elas cresceram e conseguiram justiça, se tornando mulheres fortes e que mesmo com traumas, conseguiram superar a vida.

REFERÊNCIAS
AZEVEDO, M.A. & GUERRA, V. (org.) Crianças Vitimizadas: a síndrome do pequeno poder. São Paulo: Iglu, 1989. Disponível em: <http://www.adriananunan.com/pdf/adriananunancom_abuso_sexual.pdf> Acesso em 02 nov. 2013.

FURNISS, T. Abuso Sexual da Criança – uma abordagem multidisciplinar. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993. Disponível em: <http://www.adriananunan.com/pdf/adriananunancom_abuso_sexual.pdf> Acesso em 02 nov. 2013.


MARQUES, M.A.B.. Violência doméstica contra crianças e adolescentes. Petrópolis: Vozes, 1994. Disponível em: <http://www.adriananunan.com/pdf/adriananunancom_abuso_sexual.pdf> Acesso em 02 nov. 2013.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Sigmund Freud

 "A Psicanálise é, em essência, uma cura pelo amor."


 Sigmund Freud, nasceu em 06 de maio de 1856, na cidade de Freiburg, Checoslovaquia. De origem  Judaica, aos 4 anos , sua família transferiu-se  para Viena onde morou até 1938 .
Foi uma criança precoce  e a frente do seu tempo, aos 8 anos lia Shekespeare  e na adolescência uma conferencia, cujo tema era o ensaio de Goeth sobre a natureza, o qual deixou-o deslumbrado. Aos 17 anos, iniciou sua vida acadêmica no curso de direito. Desistiu, optando pelo curso de  medicina, tornou-se  médico neurologista graduado em 1881.Segundo relatos não foi um aluno dedicado, porem, obstinado por  pesquisas cientificas, tais como; Estudos sobre os órgãos sexuais das enguias. O interesse pela sexualidade aconteceu posteriormente 20 anos mais tarde, despertando-o interesse pelas teorias psicanalíticas. Após concluir seus estudos aos 27 anos, casou-se com Martha Bernays e passa a trabalhar no Hospital Geral de Viena; foi pai de seis filhos.





Começou  sua carreira médica no hospital Geral, de forma conturbada. Freud discordava de pensamentos dos médicos Austríacos sobre doenças psicológicas, os quais, afirmavam que estes sintomas apresentados pelos doentes eram fingimentos. Neste clima de discordância entre seus colegas, Freud decide afastar-se através de licença, deslocando-se para França, passando a exercer sua profissão com o médico Frances Charcot, um estimado psiquiatra estudioso da histeria e de seu tratamento através da hipnoterapia.


Iniciando seus trabalhos pelo sistema nervoso e escreveu vários artigos sobre cocaína, porem, especializou-se em doenças nervosas. Acreditava que as pessoas manifestavam psicopatologias por não exteriorizavam seus sentimentos, reprimiam-nos de tal forma que após algum tempo os esqueciam. Observando a evolução de pacientes com histeria do médico Frances, percebeu que as causas destas, não eram de origens orgânicas e sim psicológicas, como era defendido por quase toda comunidade medica. Realizou estudos sobre a utilização da hipnose como forma de tratar pacientes histéricos, praticada até então por Charcot.  Ambos trabalharam juntos e publicaram diversos estudos sobre histeria. Foi neste período que Freud analisou seu próprio sonho, o qual ficou conhecido como, “ O sonho da injeção feita em Irmã”. Servindo esta hipótese como base para inúmeros conceitos Freudianos. Consagrou-se por ter sido criador da psicanálise e foi responsável  pela grande revolução da mente humana, utilizando-se apenas o dialogo entre pacientes e psicanalista.




Com a evolução dos estudos e maior compreensão  do trabalho executado por Charcot, desenvolve a teoria psicanalítica. Presume que não há necessidade da hipnose para tratar pacientes acometidos por histeria. Reconhecendo a “cura” pela exteriorização, fala do paciente, livre associação, aliado a conversa e interpretação do psicanalista conduza-o  naturalmente as causas de seus traumas ou doença, resignificando-os. Vocábulo atualmente utilizado, “resignificar”, ou seja, redefinir fatos e acontecimentos vivenciados, atribuindo-lhe um novo significado.



"A ciência moderna ainda não produziu um medicamento tranquilizador tão eficaz como o são umas poucas palavras boas." Freud.




Psicanalista Alis Minervino

Acolhimento e Transformação através da Psicanálise. Em um mundo marcado pela pressa e pelas incertezas, o autoconhecimento surge não apenas ...