sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Sugestão de Leitura - Livro: O amor que acende a lua. Rubem Alves


Trecho: A transformação pelo fogo.

A transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação por que devem passar os homens.  
O milho de pipoca não é o que deve ser. 
Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro.
O milho somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer. 
Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo. 
Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho para sempre.
Assim acontece com a gente. 

As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. 
Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira.
São pessoas de uma mesmice, uma dureza assombrosas. 
Só elas não percebem. 

Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser.

Mas de repente, vem o fogo. 
O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos – Dor. 
Pode ser o fogo de fora:  perder um amor, um filho, um amigo ou o emprego. 
Pode ser o fogo de dentro:  pânico, medo, ansiedade, depressão, doenças e sofrimentos cujas causas ignoramos.
Há sempre o recurso do remédio, uma maneira de apagar o fogo. 
Sem fogo, o sofrimento diminui. 
E com isso a possibilidade da grande transformação.
Imagino que a pipoca dentro da panela, ficando cada vez mais quente, pensa que a sua hora chegou:  vai morrer. 
Dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não consegue imaginar destino diferente. 
Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. 
A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. 
Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece:  BUM! 
E ela aparece completamente diferente, como nunca havia sonhado.
Piruá é o milho que se recusa a estourar. 
São aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente se recusam a mudar. 
Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem.  A sua presunção e o medo são a dura casca que não estoura. 
O destino delas é triste. 
Ficarão duras a vida inteira. 
Não vão se transformar na flor branca e macia. 
Não vão dar alegria para ninguém. 
Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo da panela ficam os piruás que não servem para nada.
Seu destino é o lixo.
E você, o que é?
Uma pipoca estourada ou um piruá?
                                                      Livro: O amor que acende a lua. Por Rubem Alves.


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