sábado, 11 de março de 2017

Psicanalise das Pulsões: O Sujeito e o Ecossistema.




Psicanalise das Pulsões: O Sujeito e o Ecossistema.

Por: Alis Minervin

O estudo pretende assim ser um contributivo para a evolução do conhecimento e tenta desvendar alguns questionamentos que cercam esse assunto. Tais como: A tendência dos seres humanos para a destruição é proporcional à sua inclinação para viver? Quais seriam as raízes desta força destrutiva? Seria está uma tendência adotada coletivamente ou há divergências?  Teria um caráter primário ou secundário? É próprio do ser humano ou foi assimilado?

Freud mestre da psicanálise, pensou o aparelho psíquico como um espaço virtual, o qual integra forças inconscientes internas que se opõem umas as outras. Definindo-os a princípio como instintos de vida ou Eros e instinto Morte ou Thanatos.

Integram-se ao Eros os instintos sexuais e de autopreservação tencionando a obtenção de prazer. Exemplos disso é o gáudio proporcionado ao alimentar-se, defecar, transar, beber, estar higienizado, beijos, carícias, sonhar entre outros. A psique segundo Freud é projetada para evitar a dor e buscar o prazer, de modo a atingir a homeostase ou equilíbrio entre corpo e mente). Observados como forças biológicas interna que nos leva a reproduzir e sobreviver.

Enquanto que a pulsão de morte, também chamado por Freud de tendência destrutiva é nutrida pela necessidade por repetir situações dolorosas.  
Sendo está avaliada como uma tendência humana para o conflito e desintegração. Estas excitações internas destrutivas, também nomeada como masoquismo, podem voltam-se para o externo secundariamente em forma de sadismo.

Portanto, nascemos com um “masoquismo inato”, o que significa obter prazer é quão doloroso que seria primário. E em um segundo momento o masoquismo poderia chegar a tornar-se sadismo. Para Freud, como resultado de constitucional ou herdado, a pessoa nasce com quantidades particulares desta energia instintiva. A diferença de grau é o que determina a patologia e a capacidade de conviver mais ou menos com o conflito. Quanto maior o instinto de morte, mais intensifica-se a compulsão por repetição e desequilíbrio emocional.


” ... Ainda outros dois textos de Freud são bastante pontuais na tentativa de elucidar o masoquismo. Um deles é “Uma Criança é Espancada” (1919), no qual, segundo Ferraz (2008), entende-se “o masoquismo como transformação inconsciente do desejo infantil de ser amado e cuidado, manipulado fisicamente. Tratar-se-ia da permanência em uma posição erótica infantil diante do objeto adulto. ” O masoquismo é aqui entendido como uma fixação na infância e na fantasia infantil de ser espancado. Freud (1919) traz essas fantasias como uma perversão infantil que pode não persistir pela vida toda, podendo ser transformada através da repressão ou da sublimação. Porém “se esses processos não ocorrem, a perversão persiste até a maturidade; e sempre que encontramos uma aberração sexual em adultos – perversão, fetichismo, inversão – temos motivos para esperar que a investigação anamnésica revele um evento como o que sugeri, que conduza a uma fixação na infância”. (p. 228). A Perversão, portanto, remete a sexualidade infantil. ” 

https://www.ufrgs.br/psicopatologia/wiki/index.php?title=De_Sacher-Masoch_ao_Masoquismo



Assim, para Freud o homem nasce com instintos de vida e morte. O transcorrer das construções vinculares, ao longo da vida podem condicionar o sujeito a apaixonar-se e reproduzir; a morte que se opõe à vida, requerendo a sua dissolução. Vale salientar que se trata de um processo silencioso. Os instintos de vida e morte mesclados na psique, quando se fragmentam perde o seu carácter de estabilização. Podendo resultar em disfunções patológicas, havendo um aumento da quantidade de força destrutiva no interior do corpo.

Para compreender esta simbologia precisamos considerar, do ponto de vista econômico. Onde uma força interna empurra para a satisfação, podendo representar destruição ou reconstrução. Originalmente Freud descreveu o instinto de morte como uma forma de compulsão à repetição. Essa força interior leva os seres humanos a tropeçar na mesma pedra mil vezes. A exemplo das relações humanas, nos apaixonamos por pessoas semelhantes, mesmo tendo estas características e representações de erros ou percas decorridas em nossa vida. Salientando que estas escolhas não significam que, caprichosamente o sujeito almeja o sofrer. Devemos lembrar que estas forças internas são inconscientes.  Podendo o sujeito através de uma intervenção terapêutica psicanalítica, elaborar, compreender e redefinir, por meio da livre associação seus conflitos internos. Resignificando-os, isto é, reeditando fatos e experiências vividos, voltando o seu olhar ao encontro de si mesmo Self.

Em súmula, as pulsões são forças internas que buscam satisfação, mas há algo além do princípio do prazer é a compulsão à repetição. Para Freud, a pulsão de morte é clinicamente silenciosa; mas é omissa quanto à ansiedade e dor que vem do desejo de viver. A dor é a vida. O esquecimento é a morte.

Por volta de 1930, Klein postulou que o instinto de vida procura satisfazer as suas necessidades e isso requer um objeto para ajudar a este propósito. Eros procura o amor em um objeto. A pulsão de morte, é a força para acabar com a necessidade ou a percepção dela. Este último se manifesta como destruidor, contra si mesmo, mas como todas as dores internas é intolerável a nossa mente a projetamos no outro. Estes mecanismos de pensamentos paranóicos vêm do pressuposto que o mundo e as pessoas querem nos prejudicar: “Um mundo ameaçador e perigoso. ”

Uma maneira para conter estes impulsos, que se encarregam da nossa destruição. Seria ao perceber estes pensamentos, refletir, questionar e tentar compreender, reeditando-os em um processo de autoanalise. Um exemplo para este caso seria: Uma mulher com raiva porque seu dia de trabalho foi muito frustrante, em vez de projetar, ou seja, esbravejar com seus filhos ou colegas, ela poderia dar-se a oportunidade de parar um pouco, e levar um tempo refletindo os acontecimentos ao longo do seu dia.

Pessoas que têm excedentes desta força destrutiva, internalizam consigo desconfiança, medo, sentem-se perseguidos, feridos e vítimas de suas circunstâncias. Externam também estes elementos, mesclando-os com o instinto de vida, manifestando raiva e agressividade para com o objeto. Ele também se revela como um elemento interno que pode ameaçar e destruir a percepção de si mesmo e / ou objetos.

Observamos a presença destas duas pulsões na natureza. A vida Eros à origem de todos os seres vivos: a chuva necessária para o crescimento da planta, o vento para a dispersão de sementes e pólen, o sol essencial para a fotossíntese. No entanto há elementos que parecem oferecer o antagônico: a terra treme em lágrimas, o excesso desta afoga e sufoca tudo, tornados varrem o que encontram em seu caminho; as doenças afligem os seres vivos. E o enigma da morte, para a qual não encontramos alívio. Tudo isso nos traz de volta à fragilidade dos mortais.

Nascemos impotentes acreditando que o trabalho e a cultura podem nos salvar. Mas é contrário a força da natureza, que nos deixa novamente no mesmo lugar de impotência com a qual nascemos.

Esta impotência inata, por vezes é tão dolorosa, que para sobreviver é preciso enfrentá-la com fantasias omnipotentes e pensamentos que servem para que o nosso eu possa desenvolver-se. Em um processo evolutivo que leva a criança a perceber posteriormente que não é um super-herói. Surgindo destes conflitos um colapso narcísico necessário para adaptar-se ao mundo e conhecer as limitações que temos como seres humanos.

Quando este desenvolvimento não segue o seu curso, para tolerância à frustração, continuamos a criar fantasias em nossas mentes, um mundo inesgotável de recursos elaborados por nós, que por não causar satisfação momentânea é descartado. Há muitos exemplos disso na cultura pós-moderna, onde a família tem seus valores deturpados, vivencia-se uma partilha de encargos de bens entre todos. Casais, jovens e crianças não tolerantes a frustrações, com inflexibilidade em conviver com as diferenças, substituem ou destituem de suas relações aqueles que se contrapõe aos seus desejos pessoais.

No entanto passar o sentimento de onipotência faz do sujeito um ser imortal, infalível é parte do desenvolvimento dos seres humanos, porém nem todos chegam a este nível de desenvolvimento. Portanto, eles continuam destruindo a grama com os pés, matando animais sem consideração, o desperdício de água entre outros. Porque eles têm o entendimento de que a criança nasce como seres superiores na Terra e tudo é permitido. E o que as crianças pensam é que a natureza é fonte inesgotável. Fundamentando-se na concepção inata que a morte é dos outros, mas não de si mesmo. O que nos leva aos atos sem avaliar as consequências.

Isso faz parte do instinto de morte que juntamente com o instinto de vida nos atrai a negligenciar o que temos para viver e para nós mesmos. Por isso, pensamos que o tempo, a vida, os recursos emocionais e intelectuais que possuímos são infinitos. É um dado adquirido do futuro, é um momento que muitos não podem sequer imaginar-se. Apesar de não assumir a nossa perenidade e a importância de cuidar do outro como nosso único legado, ou seja, como herança para as gerações futuras, vamos continuar a destruir o mundo em torno de nós. No entanto, se pudéssemos perceber a passagem do tempo, a deterioração gradual de nosso corpo, nossas habilidades, nossa agilidade e inteligência, nós vincularíamos de forma diferente com os nossos vizinhos (o outro).



Referências Bibliográficas:

FREUD, S.; BREUER, L. (1893-1895). Estúdios sobre la histeria. Buenos Aires: Amorrortu, 1998. v. 2. (Sigmund Freud. Obras Completas).
FREUD, S. (1905). Três Ensaios sobre a teoria da sexualidade. 
______. Obras psicológicas completas. Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 7.
______. O futuro de uma ilusão.
 ______. Obras completas de Sigmund Freud. Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1974. v. 21.
______. (1895). Projeto de uma Psicologia. Notas críticas de Osmyr Faria Gabbi Jr. Rio de Janeiro: Imago, 1995.
______. Escritos sobre a Psicologia do Inconsciente: obras psicológicas de Sigmund
FREUD – volume 1. Coordenação de tradução de Luiz Alberto Hanns. Rio de Janeiro: Imago, 2004.
Freud, S. (1969). Sobre o narcisismo: Uma introdução. In J. Strachey (Ed. e J. Salomão, Trad.) Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (Vol. 14, pp. 77-108). Rio de Janeiro: Imago. (Original publicado em 1914)
FREUD, S. (2004). Pulsões e destinos da pulsão. In L. A. Hanns (Ed. e Trad.)  Obras Psicológicas de Sigmund Freud:Escritos sobre a psicologia do inconsciente (Vol. 1, pp. 133-173.). Rio de Janeiro: Imago. (Original publicado em 1915).
FREUD, S. (2006). Além do princípio de prazer. In L. A. Hanns (Ed. e Trad.).  Obras Psicológicas de Sigmund Freud:Escritos sobre a psicologia do inconsciente (Vol. 2, pp. 123-198). Rio de Janeiro: Imago. (Original publicado em 1920).
FREUD, S. (2007). O problema econômico do masoquismo. In L. A. Hanns (Ed. e Trad.).  Obras Psicológicas de Sigmund Freud: Escritos sobre a psicologia do inconsciente (Vol. 3, pp. 103-124). Rio de Janeiro: Imago. (Original publicado em 1924).
LAPLANCHE, J.  (2000). Pulsão e instinto: oposições, apoios e entrelaçamentos. In Cardoso, M. R. (Org. e P. H. B. Rondon, Trad.). Adolescência: reflexões psicanalíticas (pp. 13-28). Rio de Janeiro: Nau Editora. (Trabalho original publicado em 2000). 

LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J. B. Vocabulário da Psicanálise. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1995

Antes de “curar” alguém, pergunte se ele está disposto a desistir das coisas que o deixaram doente".

Mudanças exigem decisões difíceis, porém necessárias. Há situações que o sujeito demanda maior tempo até perceber o seu padecimento psíquico...