O
artigo trás uma reflexão sobre a sexualidade infantil no contexto escolar. tema polemico pela
multiplicidade de visões, crenças, tabus, interditos e valores inseridos. O senso comum considera a sexualidade infantil algo inexistente, inclusive que não deve-se ser mencionado ou discutido. Nesta pesquisa compreenderemos a concepção de "infantil" para Sigmund Freud no final do século XIX e início do século XX, através
do exame da obra Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905), a qual o
autor apresenta a teoria sobre a sexualidade infantil.
Entendemos que os Três
ensaios sobre a teoria da sexualidade
(Freud, 1996), particularmente em sua primeira versão (1905), constituem
o que poderíamos designar como uma “obra aberta”, em que diferentes teses sobre
a pulsão sexual - muitas vezes, contraditórias entre si - são apresentadas,
lado a lado, sem uma preocupação com qualquer tipo de síntese conclusiva.
O estudo freudiano
sobre o impacto da sexualidade infantil para a vida adulta desafiou a noção
dominante da época. A criança caracterizava-se como criatura pura e inocente. Com estes pensamentos Freud passa a ser reconhecido como revolucionário, chocante e mesmo ofensivo pela sociedade. Mesmo hoje a sociedade definindo-se como contemporânea moderna, há criticas e divisões de opiniões. Os reflexos deste modo de perceber a criança é fruto da herança cultural vitoriana.
Por outro lado, cada vez com mais propriedade e embasamento teórico é possível identificar que estes pequenos têm desejos,
experiências e fantasias sexuais, embasados na teoria Freudiana.
Nos Três Ensaios sobre
a Teoria da Sexualidade, escrito em 1905, Freud (1996) surpreendeu a comunidade
científica com a teoria de que as experiências e condutas sexuais infantis
contribuem para a vida e o comportamento da pessoa adulta. Em seu trabalho revelava a divisão do período pré-puberal do desenvolvimento da personalidade
em estágios dominados por tendências sexuais, essas provenientes de impulsos
instintivos e não aprendidos, porém com o objetivo do prazer.
A sexualidade, quando relacionada
à infância, ainda hoje, é pouco falada e explicada e, por isso, permanece como
uma terra incógnita para os adultos que a experenciam como uma temática
assustadora e, muitas vezes, proibida. No entanto, é uma dimensão humana à
serviço da vida porque traz ganhos vinculados às bases fundamentais da
felicidade como o exercício do prazer e do amor. (CONSTANTINE, MARTINSON,
1984).
É preciso observar que,
sobretudo na versão original de 1905, as idéias apresentadas sobre as
perversões - na medida em que são associadas à excitação e à obtenção do prazer
de modo generalizado, ao mesmo tempo que são concebidas independentemente de um
objeto sexual pré-determinado - refiram-se não apenas à síntese perversa mas a
toda a sexualidade humana.
Nesse sentido, e isso Freud salienta desde o início, as perversões, ou melhor, as tendências perversas fariam parte constitutiva da sexualidade infantil. É de acordo com esta perspectiva que o autor, embora defenda a participação dos fatores disposicionais, finda por relativizá-los, colocando-os na dependência da experiência vivida.
Nesse sentido, e isso Freud salienta desde o início, as perversões, ou melhor, as tendências perversas fariam parte constitutiva da sexualidade infantil. É de acordo com esta perspectiva que o autor, embora defenda a participação dos fatores disposicionais, finda por relativizá-los, colocando-os na dependência da experiência vivida.
Publicada em 1905, a obra em
questão foi modificada pelo autor nas suas várias reedições, o que trouxe uma
dificuldade do seu exame tendo em vista o objetivo do seu estudo. Se o objetivo
foi analisar o infantil para Freud que se configura nos Três ensaios no
contexto da emergência dos saberes sobre a criança, ou seja, no final do século
XIX, o foco incidiu necessariamente sobre as idéias e os termos que foram
colocados pelo autor em 1905. Deste modo, uma das preocupações principais do
estudo desta obra foi tentar discernir as idéias e os conceitos que de fato
fizeram parte da primeira versão da obra. Para tanto, realizamos o estudo
cotejando diferentes edições que indicam as introduções feitas pelo autor,
posteriores a 1905. (IMAGO, 2002).
Freud fala sobre as
neuroses e diz que seus sintomas surgem não só pelas pulsões sexuais normais,
como pelas perversas. Diz que essas pulsões perversas são decorrentes pelo fato
dos pacientes manterem o estado infantil de sua sexualidade. Neste momento
Freud passa ao estudo da sexualidade infantil, quebrando assim vários tabus.
A sucção voluptuosa nos permitiu
distinguir as três características essenciais de uma manifestação sexual
infantil. Ela ainda não conhece objeto sexual algum, é auto-erótica e seu alvo
sexual está sob a dominação de uma zona erógena. (FREUD, 1987, p.106-7).
Não satisfeito com
estas duas hipóteses, Freud passa a explicar a presença do par de elementos
opostos sadomasoquistas, a partir de uma espécie de disposição à bissexualidade
que reuniria os caracteres masculinos e femininos da pulsão no mesmo indivíduo.
Mas, se no início dos
Três ensaios, no momento em que Freud desmonta as noções “populares” de alvo e
objeto específicos, opondo-se a toda e qualquer concepção pré-determinada da
sexualidade, como pode admitir uma disposição originária de natureza bissexual?
Consideramos que essas
oscilações, presentes em 1905, poderiam ser melhor compreendidas, caso não nos
esqueçamos de que esta obra foi escrita logo após o abandono da teoria da
sedução, em função do qual começaram a surgir vários impasses teóricos,
sobretudo no que diz respeito à gênese das pulsões.
Freud afirma que a
pulsão na criança é desprovida de objeto, ou seja, é auto erótica, voltada para
o próprio corpo. Na infância as pulsões são desvinculadas e independentes entre
si em sua busca pelo prazer, por isso Freud diz que a criança é um perverso
polimorfo, ou seja não há moral nem vergonha por essa busca.
Para Freud a
sexualidade seria passível de observação aos três ou quatro anos de idade.
Posteriormente haveria um declínio da sexualidade infantil até a puberdade.
Nesta fase da vida, denominada por Freud como período de latência, as pulsões
sexuais teriam seus fluxos restringidos em forma de diques. Tais diques seriam
os sentimentos de vergonha, a repugnância e as exigências dos ideais éticos e
estéticos.
A educação, para Freud, contribui muito na construção destes diques, embora o autor afirme que o desenvolvimento destes sentimentos faça parte daquilo que “é organicamente condicionado e fixado pela hereditariedade”. A atenção dispensada pelos educadores à sexualidade infantil se daria como fortalecimento das forças defensivas diante da possibilidade da manifestação sexual infantil.
A educação, para Freud, contribui muito na construção destes diques, embora o autor afirme que o desenvolvimento destes sentimentos faça parte daquilo que “é organicamente condicionado e fixado pela hereditariedade”. A atenção dispensada pelos educadores à sexualidade infantil se daria como fortalecimento das forças defensivas diante da possibilidade da manifestação sexual infantil.
Uma afirmação como essa
nos faz pensar que, a despeito da ênfase dada por Freud à ausência de objeto
sexual como uma das características da sexualidade infantil, quando da
referência ao ato de sucção do bebê, é possível depreender a ideia de que o
auto-erotismo não seja originário, já que a condição de seu surgimento é a separação
das funções autoconservativas da necessidade de reproduzir o prazer obtido
originariamente na relação com o seio da mãe. Este, como veremos, deverá ser
abandonado a partir da representação da mãe como objeto total, tornando-se a
sexualidade infantil, em seguida, auto-erótica.
A sexualidade adulta
resultaria de uma espécie de desenvolvimento da pulsão: dispersa em várias
zonas erógenas, isolada em suas pulsões parciais e predominantemente
auto-erótica (sem objeto) na infância, a sexualidade ganha um outro tipo de
organização na puberdade. Essa nova organização se caracterizaria pela
hierarquização e subordinação das diversas zonas erógenas à genital, visando a
obtenção do máximo de prazer, mas sobretudo colocando-se a serviço da função de
reprodução, o que se torna possível a partir da combinação das diversas pulsões
parciais em uma só.
É como se houvesse, em
particular nessa primeira edição de 1905, uma ruptura entre a orientação dada
ao primeiro e ao segundo ensaio, de um lado, e ao terceiro, de outro, na medida
em que no último, diferentemente dos primeiros, a sexualidade aparece associada
a um certo finalismo organicista, ao mesmo tempo em que se pode identificar um
retorno às concepções clássicas de normatividade.
A partir da análise
exclusiva da primeira edição (1905), observamos uma verdadeira ruptura entre as
orientações do primeiro e segundo ensaios em relação à do terceiro. Enquanto
nos primeiros a sexualidade é apresentada essencialmente em seus aspectos
perversos e polimórficos, no terceiro tais aspectos tendem a desaparecer, dando
lugar a uma espécie de teleologia extrínseca a ela mesma, em que o prazer se vê
substituído pelo fim reprodutivo.
No entanto, conforme
avançamos na leitura das demais edições, notamos que a ruptura entre os dois
primeiros ensaios e o terceiro praticamente desaparece, na medida em que, em
nome de uma espécie de finalismo evolutivo, esboça-se cada vez com maior
intensidade uma tendência a amenizar o “caráter aberrante” da sexualidade.
Tendência que pode ser identificada, por exemplo, no momento em que começa a
surgir a ideia de uma organização bem definida da sexualidade infantil (oral,
anal e genital-fálica), cujo “estadismo” (a delimitação de estágios sucessivos)
em nada se assemelha aos aspectos polimórficos e dispersos, tais como foram
apresentados originalmente em 1905.
REFERÊNCIAS
CONSTANTINE, Larry L. MARTINSON, Floyd
M. Sexualidade infantil: novos
conceitos, novas perspectivas. São Paulo, Roca, 1984.
FREUD, Sigmund. Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade. In: Obras psicológicas
completas de Sigmund Freud. Vol. VII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, Sigmund. In: IMAGO. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade.
Trad. de Paulo Dias Correa. Rio de Janeiro, Imago, 2002.